Muita gente defende os artistas que gosta ou até mesmo critica o que não gosta. Quando o assunto é voz, adoramos falar que aquela pessoa canta bem ou canta mal, pensamos em um monte de adjetivos, mas o que de fato significa cantar bem? A verdade é que existem diversas técnicas a serem usadas e, ao contrário do que muitos podem pensar, você não necessariamente precisa fazer aula de canto para cantar com técnica, ou tecnicamente bem.

Muitas pessoas possui instintivamente uma técnica vocal, natural, que possibilita que elas cantem de forma boa e saudável. Então quando pensamos que uma voz é melhor que a outra… O que isso significa? Como podemos dizer que a Beyoncé, por exemplo, canta mais que a Celine Dion ou mais que a Lana Del Rey ou que o próprio Pavarotti? Existe um conceito de técnica vocal, que eu particularmente gosto de usar, que acaba dividindo esses artistas em algumas categorias. Vamos falar delas agora…

Os diferentes níveis de técnica vocal:

Considerando uma “nota alta” ou aguda, vamos pensar nos diferentes cenários em que um cantor pode se encontrar:

  • Técnica Vocal Inexistente: Ele pode não alcançar a nota desejada
  • Técnica Vocal Ruim: Alcançar com um timbre “ruim”
  • Técnica Vocal Comum: Alcançar com um timbre comum ou robotizado
  • Técnica Vocal Absoluta: Alcançar com seu timbre natural
  • Técnica Vocal Camaleão: Alcançar com um timbre manipulado

Assumindo que a nota encontra-se na tessitura do cantor, se ele não alcança a nota desejada, obviamente ele não possui técnica suficiente para isso. Esse seria um nível de técnica pequeno ou inexistente. Quando o cantor alcança aquela nota com um timbre ruim, me refiro ao tom de voz ser desagradável, não saudável, muitas vezes apresentando consequências como rouquidão ou até mesmo perda da voz. Podemos chamar de forçar a voz, para facilitar o entendimento.

Quando me refiro à um timbre comum, ou robotizado, significa que a voz natural do cantor não transparece naquela nota. Muitos cantores hoje em dia utilizam uma técnica que “simula” uma voz, criando um personagem vocal, pois isso facilita o controle do alcance vocal e permite alcançar notas mais altas com mais facilidade. Quando ouvimos, por exemplo, Sabrina Carpenter ou Madison Beer cantando a mesma nota aguda, as duas vozes não são tão distintas e, a menos que você conheça muito bem a voz das duas, provavelmente você não saberá distingui-las.

Na prática isso não é tão saudável à longo prazo se usada por muito tempo, mas é um bom começo, pois essa técnica pode ser refinada. Pensando nos primeiros álbuns da Ariana Grande e Demi Lovato, as duas tinham vozes relativamente similares, porém hoje em dia ambas trabalharam tanto nas suas vozes que ficou bem mais fácil distinguir entre as duas cantando. Isso porque elas evoluíram para o outro nível de técnica da qual me refiro, de timbre natural.

Quando a pessoa alcança aquela nota aguda e seu timbre natural é capaz de brilhar, é o que eu gosto de chamar de técnica absoluta. Isso porque o que muda a sua voz é a tensão colocada para emitir a nota. Sendo assim se seu timbre é robotizado, provavelmente existe tensão em algum ponto que impossibilita seu timbre natural de aparecer. Se a sua voz transparece naquela nota, sua voz não possui nenhuma tensão que mascare seu timbre, logo, tecnicamente, sua voz seria “perfeita” ou absoluta, pois a falta de tensão não trará problemas às suas cordas vocais.

Alguém como Beyoncé, ou Pavarotti por exemplo, é inconfundível. Ambos possuem tanta técnica vocal que eles podem fazer qualquer nota e você saberá instantaneamente quem está cantando. Não existe tensão desnecessária para emitir aquela nota, para cantar, ou seja, suas vozes devem se mante saudáveis por um longo tempo.

Mas se isso é técnica vocal absoluta, o que significa um timbre manipulado?

Da mesma forma que a técnica comum cria um “personagem vocal” para alcançar aquela nota, muita gente trabalha em deixar esse personagem vocal igual à um cantor específico. Essas imitações podem ser feitas de forma mais ou menos saudável, portanto é mais complicado falar que ela está acima da absoluta. Acabo me referindo à esse jeito de cantar como “camaleão”, pois o principal ponto é alterar o próprio timbre para um específico, não para um comum. O objetivo é emitir aquela nota ou aquele som com o timbre em mente, seja ele o seu natural ou não, mas sim específico.

Existem artistas que fazem isso de forma não tão saudável, como a própria Ariana Grande, que utiliza isso apenas para comédia, não necessariamente cantando assim no seu dia a dia. Inclusive a cantora já deu entrevistas falando que sente dor quando fica imitando os outros por muito tempo. Em contrapartida, temos Mitch Grassi, Bebe Rexha e Christina Aguilera. Esses três tem um comum sua técnica camaleão porque eles modificam seus timbres de acordo com a música que desejam cantar, levando em consideração a mensagem da música em si.

Muitos cantores com técnica camaleão possuem técnica vocal absoluta como base, pois de tanto treinarem suas vozes, eles criaram um personagem. É o caso do Mitch Grassi, tenor do Pentatonix, que hoje faz uma voz feminina, conhecida como contratenor. Grassi não é naturalmente um contratenor, mas sim um tenor lírico. O cantor, porém, possui tanto controle da própria voz que consegue mudar seu timbre de forma saudável para criar um tom mais feminino, por questões de estética vocal.

Resumindo…

Vamos pensar em uma soprano lírica. Sua zona de passagem está entre B4 e C5, normalmente. Sendo assim, se ela quiser alcançar um D5 ela precisará pensar em como abordar essa nota. Se ela não tiver força suficiente na sua voz, ela provavelmente não alcançará a nota, isso que eu chamo de técnica inexistente. Porém como essa nota particularmente não é tão alta para esse tipo de voz, ela poderá alcançar a nota mesmo que com uma técnica ruim.

Eu chamo de ruim pois será necessário pôr força nos músculos da garganta, fazendo com que o timbre da sua voz alcançando essa nota seja desagradável e, muitas vezes, impossibilitando que ela seja alcançada novamente, pois já houve um desgaste imediato das pregas vocais.

Evoluindo do conceito de grito, que é basicamente forçar a sua voz à fazer algo que não tem preparo físico ainda, chegamos ao terceiro tipo de técnica, comum, onde a pessoa consegue fazer sua voz alcançar uma nota além da sua zona de passagem, porém de forma um tanto mecânica ou robótica. O resultado disso é na maior parte das vezes saudável, porém é possível notar que a voz da pessoa perde o seu timbre natural. Em essência, é como se estivéssemos imitando uma voz que alcança essa nota, uma voz que não é a nossa e nem a de ninguém em particular.

Então chegamos ao que eu gosto de chamar de técnica vocal perfeita. Quando um artista alcança a nota com a devida força, sem mais nem menos, pois o músculo da voz é um músculo normal que precisa de força para funcionar. Se todo o seu corpo relaxado consegue usar o mínimo de força para emitir aquela nota, fazer aquela voz, então além de alcançar a nota podemos notar o timbre natural da pessoa, que muitos não sabem, mas funciona como uma impressão digital, porém vocal. Cada ser humano tem seu próprio timbre distinto, portanto quando a técnica vocal da pessoa já ocorre de forma natural, não pensada ou mecânica, pode-se identificar a voz mesmo em uma única nota.

Nesse post eu me referi apenas à notas agudas, mas isso serve para todas as áreas da voz. Seja grave, média, alta, voz de cabeça… Achei mais fácil falar de notas agudas, pois elas são mais comuns dentro dos diferentes estudos da voz e muitas vezes se referem à um mesmo jeito de cantar, que é o de voz mista.

É importante lembrar que existem limitações físicas tanto para notas graves quanto agudas, portanto se um cantor não alcança uma nota, precisamos entender se aquela nota deveria ser alcançável ou não antes de criticar o artista. E mesmo críticas devem se manter construtivas, pois todo cantor pode trabalhar em sua voz e melhorar, portanto aqui falo apenas do nível de técnica vocal objetiva, não das questões artísticas das diferentes vozes.

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